quarta-feira, 9 de março de 2016

ABELARD JACQUES NORONHA: O MACUMBEIRO DO PROFISSIONALISMO

O historiador colorado Stephanos Demetriou nos enviou este texto que estamos publicando na íntegra.

Abelard Jacques Noronha assumiu a presidência do Sport Club Internacional em outubro de 1942 e esteve à frente da instituição até dezembro de 1944. Dirigente de seis títulos em seis títulos possíveis: tricampeão municipal e tricampeão estadual costumava observar os números oficiais do time sob o seu comando: “ - joguei 105 partidas oficiais e perdi apenas sete, fizemos 415 gols e tomamos 174.”

Arquivo Histórico Sport Club Internacional
Era um homem determinado e comandava o clube para alcançar grandes conquistas. Foi responsável por importantes melhoramentos no Estádio dos Eucaliptos e, em 1943, construiu o pavilhão social que propiciou maior abrigo e conforto aos torcedores.

Também é de vasto conhecimento os esforços implementados por Abelard na manutenção do assediado plantel do Rolo Compressor, quando costumava recusar propostas de vulto vindas de São Paulo e Rio de Janeiro afirmando categoricamente: “ - não negocio os jogadores do meu clube!”
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 A postura do presidente do Sport Club Internacional e os expressivos resultados do Rolo Compressor foram homenageados por Ary Barroso em crônica intitulada “O Macumbeiro do Profissionalismo Indígena”, transcrita integralmente:

Rio, 23.

Nos áureos tempos do amadorismo puro, o jogador escolhia livremente o clube dos seus afetos e envergava a sua camiseta com orgulho e entusiasmo. Os vôos eram raros e, quase sempre, provocavam escândalo. Quando um atleta qualquer trocava de clube, era cognominado sarcasticamente de borboleta. Os borboletas podem ser os precursores da “insensibilidade clubística” que contaminou o nosso profissionalismo. O regime da remuneração organizava (ou desorganizada?) veio acabar definitivamente com o lado emocional do futebol.

Hoje em dia o jogador não tem mais preferência. Vai para o Grêmio que melhor lhe pagar. Não joga por causa do clube, senão pelo contrato a prazo fixo. Tanto se lhe faz vestir uma camisa branca ou preta, azul ou vermelha, aqui ou em São Paulo, no Norte ou no Sul. Todo fim de ano é este corre-corre tremendo em busca de craques, com operações mais ou menos escusas e expedientes geralmente inferiores.

No panorama do profissionalismo brasileiro, porém, há um grupo de jogadores sui generis. As abarrotadas arcas de dinheiro dos clubes milionários do Rio e de São Paulo absolutamente não seduzem o jogador deste grupo. São profissionais com mentalidade amadorista. Sentem-se bem onde estão e ouvem com singular desinteresse as ternas e embaladoras canções das sereias astutas que pretendem abraçar. Refiro-me ao notável grupo de profissionais do Internacional de Porto Alegre.

O estribilho destas canções de amor é o mesmo com pequeninas adaptações:

- Que é que vocês pretendem da vida, perdidos lá pelas lonjuras dos pampas? A felicidade está por aqui. Há dinheiro, fama, popularidade, cartaz, enfim... Vamos pensar no dia de amanhã.

E eles continuam firmes no Internacional... Sai jogador do Pará, de Pernambuco, da Bahia, de Minas Gerais, do Paraná. Do Internacional não sai. Os emissários vão ao sul e voltam desnorteados com o livro de cheques intacto. Que será isso? Não é por falta das sereias cantarem para eles o chorinho buliçoso e metálico das cifras. Há qualquer segredo no apego destes profissionais do Internacional ao próprio clube.

Alguém dirá:

- São muito burros.

Responderei:

- De burro não têm nada. São divinamente sagazes e inteligentes. Querem saber o que um deles me disse?

- Não me interessam as propostas formidáveis que constantemente nos fazem representantes de clubes cariocas e paulistas. Não deixo o Internacional. Vivo bem por lá, rodeado de amigos sinceros, protegido por meus diretores e amparado pela minha torcida. Por que hei de abandonar o agradável ambiente em que vivo, pela ambição de mais alguns cruzeiros? Nem tudo neste mundo se pode comprar com dinheiro. Não, estou satisfeito no Internacional e já que comecei neste clube, nele hei de terminar minha carreira. Se o futebol brasileiro precisar de meus modestos recursos, estarei a sua disposição com prazer e honra. Agora, clube, só o meu.

Quando o craque terminou eu ainda continuei olhando para ele, meio tonto, meio abobalhado, sem capacidade para articular uma palavra. Percebendo minha atitude, sublinhou as suas expressões com este período definitivo:

- É isso mesmo, “seu” Ary.

Uma espécie de tiro de misericórdia.

Sacudi a cabeça como quem espanta o sono e rapidamente dei um pulaço na cadeira e fui cair no gabinete de trabalho do senhor Abelard Noronha, na capital gaúcha, para perguntar-lhe com a sofreguidão dos curiosos impenitentes:

- Presidente, o senhor que é macumbeiro do profissionalismo indígena, o senhor que faz despachos terríveis e os coloca na porta da casa de seus jogadores a ponto de inocular-lhes a mística internacionalista, o senhor que não tem medo de tenores e muito menos de sereias, o senhor feiticeiro dos pampas, quer me revelar a sua reza milagrosa? Olhe, que sabe não é isso que está faltando ao futebol brasileiro e nós seremos capazes de fazer uma revolução no profissionalismo fazendo de todos os jogadores gente da marca dos seus jogadores. Ah, pai de santo invencível, me dá um pouco de seu marafo.

Porque, meus senhores, a obra do presidente do Internacional tem sido tão útil, tão grande e tem produzido tão admiráveis frutos que ele pode ser apontado como único em sua terra, pondo amor no coração dos seus contratados e retendo no seu clube astros de invulgar brilho, como este gigantesco Ávila, este satânico Adãozinho, este incansável Abigail e esta maravilha que é Tesourinha. Eta macumbeiro brabo e perigoso.

Abelard era natural de Vacaria, onde nasceu em 22 de outubro de 1911. Além de se destacar na direção do Internacional, foi piloto de automóveis, tendo participado de diversas corridas entre 1934 e 1943. Faleceu em fevereiro de 1997.
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BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
LIVROS
 ANDREATTA, Luiz Fernando; RENNER, Paulo Roberto. Automobilismo no tempo das carreteras: em especial no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Edição dos Autores, 1992.
BRAGA, Kenny. Rolo Compressor: memória de um time fabuloso. Porto Alegre: Já Editores, 2008.
COIMBRA, David; NORONHA, Nico. A história dos Grenais. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1994.
OSTERMANN, Ruy Carlos. Meu coração é vermelho. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1999.
 JORNAIS
 Correio do Povo, 04 de agosto de 1936.
Jornal do Brasil, 24 de novembro de 1944.
REFERÊNCIA DAS IMAGENS
01 – Abelard Jacques Noronha, em cerimônia inicial de um jogo. Fonte: BRAGA, Kenny. Rolo Compressor: memória de um time fabuloso. Porto Alegre: Já Editores, 2008.
02 – O carro nº 32 pilotado por Noronha se envolveu em uma derrapagem sem grandes conseqüências, mas que custou a sequência na disputa da série. Fonte: Correio do Povo, 04 de agosto de 1936.
03 – Abelard Jacques Noronha e companheiro de competições automobilísticas. Fonte: ANDREATTA, Luiz Fernando; RENNER, Paulo Roberto. Automobilismo no tempo das carreteras: em especial no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Edição dos Autores, 1992. p. 119.  





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